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Carnaval de rua ainda sobrevive em Alagoas

Tradição da festa de momo de Maceió aos outros municípios alagoanos promete arrastar multidões nos quatro dias de folia

Por Valdete Calheiros / Tribuna Independente 14/02/2026 08h05 - Atualizado em 14/02/2026 08h21
Carnaval de rua ainda sobrevive em Alagoas
Carlito Lima, que estará neste domingo conduzindo o Bloco Nega Fulô pela orla de Maceió - Foto: Divulgação

O Carnaval de rua em Maceió é um espaço onde cultura popular e alegria se unem, oferecendo momentos de resistência e valorização da tradição. Blocos como o das Incubadas, na Chã da Jaqueira, o bloco Quadra 35/36, no Vergel do Lago, o Nega Fulô e outros reúnem famílias para celebrar a folia e a diversidade. A proposta é manter viva a tradição, mostrando que a capital alagoana não se resume apenas às prévias carnavalescas.

O Bloco das Incubadas, na Chã da Jaqueira, é uma tradição há 20 anos e arrasta uma multidão pelas ruas do bairro, resgatando o famoso mela-mela com maisena, como ocorria em épocas passadas. Criado por Edmilson Joaquim, já falecido, seu filho Edilson Cavalcante decidiu manter a tradição e garante que ela continuará por muitos anos: “Meu pai criou esse bloco com muito amor, para que as famílias da Chã da Jaqueira pudessem brincar em um ambiente saudável, com alegria e descontração”, destacou.

O domingo e a segunda-feira de carnaval são os dias mais aguardados pela comunidade, quando cada morador inventa sua fantasia e percorre as ruas com muita animação. O evento é totalmente gratuito e não exige abadá, pois, segundo Edilson Cavalcante, o que importa é a participação de todos. A concentração acontece no domingo (15) e na segunda-feira (16), a partir das 15h, com início do desfile às 16h.

Edilson Cavalcante está à frente do Bloco das Incubadas, tradição que começou com o seu pai em 2004 (Foto: Divulgação)

Já na zona sul de Maceió, a folia é garantida com o bloco Quadra 35/36, no Joaquim Leão, bairro Vergel do Lago. Com 16 anos de tradição, o bloco leva alegria aos moradores da Ponta Grossa, Prado e comunidades vizinhas. Idealizado pelo produtor cultural Raimundo Nonato, envolvido em diversas manifestações culturais, o bloco desfila às 16h deste domingo (15), trazendo muito frevo e animação para os foliões que aguardam ansiosamente o evento todos os anos.

Em um movimento de luta e resistência em defesa do carnaval, Carlito Lima colocou na orla, em 2016, o Bloco Nega Fulô. Desde então, o desfile só deixou de acontecer durante os anos da pandemia. A iniciativa cresceu e rendeu novos adeptos.

Carlito Lima, um apaixonado pelo bom e saudoso Carnaval popular vai reunir, no domingo de Carnaval, o Bloco Nega Fulô, partindo dos 7 Coqueiros, às 14 horas. A animação ficará por conta da Orquestra de Frevo do Maestro Elizaubo.

Na terça-feira de Carnaval, dia 17 de fevereiro, o desfile será à noite no tradicional bairro de Jaraguá, com concentração na Praça Dois Leões, às 19 horas.

O desfile é aberto ao público. Não terá cordão de isolamento e embora haja a comercialização de camisas alusivas ao bloco, sua aquisição não é obrigatória.

Junto ao Nega Fulô irão espalhar a magia do Carnaval na orla, o Bloco Sonho Encantado (infanto-juvenil), Bloco Mamãe Eu Quero (da família do alagoano Jararaca), Bloco Só Vai Quem Chupa, Bloco Bonecos da Cidade, Bloco Beijoca na Biloca, Bloco Esquenta (do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas), Bloco do Zé Pereira e Bloco Poço na Folia.

Rever Conceito

Carlito Lima explicou que o fato de Maceió ser a capital das prévias não invalida a cidade de ser também palco do Carnaval propriamente dito. Na sua opinião, é inaceitável que a capital das prévias carnavalescas e dos milhares de foliões que seguiram dezenas de blocos durante os dois últimos finais de semana dê lugar ao mais absoluto sossego na Folia de Momo.

“A explicação para esse movimento é que, por muito tempo, Maceió foi vendida como um destino turístico de tranquilidade no Carnaval. O que foi um erro. Precisamos rever, com urgência, esse conceito vendido pelas secretarias estadual e municipal de Turismo”, frisou.

Os desfiles não tiveram apoio financeiro de nenhuma secretaria ou órgão público do poder executivo de Maceió. Neste Carnaval 2026, o grande homenageado será o Moleque Namorador.

“O objetivo do Blocão é juntar forças para trazer de volta o Carnaval à cidade de Maceió nos dias de Carnaval, impulsionar a cultura e a economia criativa na cidade”, explicou.

Na avaliação de Carlito Lima, é uma injustiça afirmar que Maceió é apenas uma cidade de prévias. “Nós também temos uma programação bacana durante o carnaval e as pessoas vêm prestigiar”, alegou Carlito Lima ao completar que os maceioenses também merecem carnaval.

O escritor Carlito Lima, que carrega uma longa trajetória no Carnaval, ressaltou a importância de se recuperar a tradição da festa na capital, que já teve grande força em outras décadas.

“Em cada esquina havia um palanque com uma banda de música tocando frevos e marchinhas e o povo embaixo dançando, pulando na maior festa democrática misturados na frevança o pobre e o rico, a enfermeira e o doutor, o soldado e o Capitão. Enquanto os carros, jipes e caminhonetes rodavam fazendo o corso, desfile de carros abertos. Eu e os meninos da Avenida da Paz toda noite subíamos ao Centro da cidade em busca de folia e aventuras. Conhecíamos os donos dos carros do corso, às vezes pegava carona. Nosso QG era o escritório do Senador Rui Palmeira na Rua do Comércio 400”.

Segundo Carlito Lima, o Carnaval é a maior manifestação cultural espontânea do povo brasileiro. No Carnaval, completou ele, o homem, o menino, o velho, a moça, o rico, e e o pobre expelem sua tristeza pelo menos durante quatro dias.

“Qualquer psicólogo receita o carnaval para depressão. Carnaval é alegria do povo. E tem mais Carnaval é um grande negócio, é a síntese da Economia Criativa, durante o Carnaval quem mais ganha são os pequenos comerciantes: ambulantes, músicos, taxistas, pousadas, hotéis, costureiras, montadoras.

O carnaval em Maceió, antigamente, sempre foi bem organizado e o maceioense era folião de brincar os quatro dias na cidade e nos clubes. A Prefeitura de Maceió, naquela época, constituía a COC, Comissão Organizadora do Carnaval, com jornalistas, artistas, carnavalescos que traçavam a programação do carnaval de rua da cidade.

“Nos anos 40/50/60, o Carnaval de rua em Maceió iniciava 15 dias antes com a Maratona Carnavalesca, todos os dias das 19 horas à meia noite, na Rua do Comércio, tendo uma orquestra de frevo em cada esquina e o corso rolando. Toda noite o Centro da cidade lotava de foliões e os apreciadores de Carnaval, ficavam assistindo da calçada o povo dançar e se esbaldar”, recordou Carlito Lima.

O Carnaval de rua de Maceió acabou-se com a esdrúxula justificativa de não incomodar ao turista. A maior burrice criminosa que fizeram com a cidade de Maceió. Os moradores da cidade começaram a procurar a folia em outros locais, como Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Barra de São Miguel, Paripueira, deixando um vazio na cidade. Maceió parece um cemitério com as praias, os restaurantes, bares vazios, deixando de faturar nos dias de Carnaval.

Carlito Lima defende o Carnaval como período fértil para a economia criativa que tem como matérias primas a inteligência e a criatividade humanas, recursos que, se bem trabalhados, tendem ao infinito.

“Na música, desempenham papel fundamental os compositores, os puxadores de blocos, os instrumentistas e, por que não, os próprios espectadores, que consomem (ou baixam pela Internet) as letras das músicas de Carnaval. Muitas das quais exploram o riquíssimo folclore nacional. Nos trios elétricos, nos blocos e nas escolas de samba, destaque-se a presença marcante de ritmos, como as marchas, o axé, o samba e o frevo. Passando para os quesitos artes visuais, artes cênicas e dança, assistimos um show de criatividade e bom gosto de designers, coreógrafos, estilistas, figurinistas, roteiristas, costureiros, maquiadores, artesãos, bailarinos e passistas”, detalhou.

Antigos Carnavais

Conforme o jornalista e historiador Edberto Ticianeli, durante o Carnaval, a Rua do Comércio era uma verdadeira loucura. Carros de capotas arreadas passavam com moças e rapazes fantasiados, cantando canções carnavalescas.

“Serpentinas entrelaçavam-se, nos automóveis, espalhando-se, aos montes, pelas ruas, dando um colorido bizarro ao ambiente. As fantasias mais caras, mais ricas eram apresentadas pelos que faziam o corso. Confetes eram jogados em todas as direções, cobrindo o calçamento de continhas multicores. Os não foliões faziam em alas, de lado a lado da rua, para apreciarem o espetáculo.

Edberto Ticianeli recordou ainda os antigos blocos carnavalescos de Maceió. “Jamais deixaram de aparecer no Carnaval maceioense clubes e grupos carnavalescos, alguns antigos, com mais de 50 anos, outros mais novos, todos porém, animados e compostos de verdadeiros foliões, dispostos a festejar e honrar o deus Momo”.

Ele recordou de clubes como Clubes das Pás, do Sururu, dos Morcegos, Vassourinhas, Vulcão (dos soldados da Polícia Militar), Tromba D’água, Botafora, Cara Dura, o grande herói fundado em 1900, ao findar o século XIX, Ciganinhas do Major (o Major era Bonifácio Magalhães da Silveira, presidente perpétuo da República da Alegria, em Bebedouro), Dobradiças, Fechadura (de praças do 20º Batalhão de Caçadores), Lenhadores, Ciganas, Abanadores, Garças Brancas, Cambinda de Ouro, Ciscadores, Estrela D’alva, Cavalheiros dos Montes (sic), dirigido pelo Rás Gonguila, Mosquitinhos, Maracatus do Dão, do Diogo e outros mais.

O jornalista e historiador Edberto Ticianeli fez uma indagação. Qual pessoa de meia idade, cidadã de Maceió, não conheceu, ou pelo menos ouviu falar em Moleque Namorador, o grande mestre do passo brasileiro?

Nascido na cidade alagoana de São Luiz de Quitunde, recordou Edberto Ticianeli, mudou-se, com a família para a capital do estado. Do alto do seu 1,43 metro, Armando Veríssimo Ribeiro, o Moleque Namorador, venceu, aos 18 anos, o Concurso de Passo de 1937 realizado no Teatro Deodoro, representando o Clube Carnavalesco Cavaleiro dos Montes.

O feito o tornou conhecido em todo o Brasil, diversos repórteres de prestigiosas revistas e jornais, chegaram a Maceió para entrevistá-lo. Entrevistas e fotografias foram publicadas na revista O Cruzeiro, a revista mais importante do Brasil, na época.

“Tentando ajudar a conseguir o sustento para a família, o menino que estava com sete anos de idade, passou a trabalhar como jornaleiro, depois como engraxate e aí é que conhece o Ras Gonguila, que dirigia o seu clube o Cavaleiro dos Montes, que tinha sede no bairro do Farol e era inimigo figadal do clube carnavalesco Caradura. Ao tempo em que Armando se agrega ao ofício de engraxate, junta-se a um grande grupo de meninos de rua, taxados então como maloqueiros, tornando-se entre eles em uma espécie de Robin Hood”.

Conforme o jornalista, sendo engraxate, conseguindo algum dinheiro de sobra, se sentia dono de seu nariz para fazer o que bem entendesse; era livre, afinal, líder de uma classe meio perigosa. Essa condição o tornou pandeirista, sambista, batuqueiro, tocador de reco-reco, especialmente no período natalino; tocador de realejo e finalmente passista; era o maior, era o campeão absoluto do frevo, na modalidade do passo. “Em todos os concursos que entrava, conseguia o primeiro lugar; derrotou, em concurso de passo o negro Gia, de Pernambuco, aplaudido e vitorioso passista pernambucano”. O Moleque Namorador faleceu, antes de completar 30 anos de idade, no dia 08 de maio de 1949, vítima de tuberculose pulmonar.